segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Saudade Legítima.
A verdadeira vela póstuma, ao chorar suas cera, diz "vou sentir sua falta" ao invés de "adeus".
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Lei da gravidade
Invejo ele por não ter aquele corpo. Por não ter aquela combinação entre olhos, nariz e boca. Por não receber tanta atenção. Invejo a pele, o sorriso, os braços e o tronco. Levo a sua morte em meus braços. A morte dele é previsível. Tudo que é e esta por aqui sofre as penas da lei da gravidade. Cuidado com a cabeça quando estiver sentado embaixo de uma árvore. O que de melhor tenho não está visível, talvez eu perca por isso. O que de melhor tenho não é perecível. Dispenso superfícies ocas porque um dia aqueles belos frutos maduros cairão.
Escrito por Rafael Franco
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Explosão
Há dois homens de quem eu gostaria de ter o coração. Percebo isso ao olhar meu esmalte vermelho-vívido, adequadamente chamado Um Toque de Ira.Espremeria esses corações com minhas próprias mãos- minhas mãos... envoltas ao músculo mole como se esse fosse o pescoço frágil de uma criança. Nas pontas de meus dedos, a minha dor e minha revolta se transformariam em tensão sobre a carne que gera pequenos abismos a medida que nela se afundam...Até que repentinamente, me assustaria e degustaria o barulho oco da explosão. O sangue quente molhando meu rosto em um jato hiper veloz, e a morte em meu sorriso desvairado...as mãos ainda apertando a carne escorregadia e melada.
domingo, 27 de setembro de 2009
Inanição.
Trabalhávamos em uma fábrica imunda e desolada no fim dos tempos depois da grande última guerra. Estiradas e enferrujadas a maquinaria se assemelhava à um gigante colossal de um animal inventado.
O trabalho era simples: consistia em triturar entulhos para transformá-los em matéria prima onde se protejer das condições extremas. Mas nada se é simples quando há um espaço vazio onde deveria haver digestão. Depois de um tempo a impressão que se tem é que o corpo se devora de dentro para fora... a começar pelas próprias paredes do estômago.
A sutileza da situação, levou alguns ao canibalismo... homem contra homem, homem come homem... ao se pensar bem, nota-se que é um absurdo menor que a guerra em si. É um absurdo de sobrevivência.
Eu, no entanto, tenho o paladar sensível para um sabor tão exótico quanto a carne humana. Não me apetece roer os dedinhos de uma mão e chupar-lhes o tutano dos ossos. Mais aprecio a minha inanição. Morte lenta e dolorosa.
Não temos salários, nem nenhum outro tipo de pagamento. Assim sendo, funcionários dos mais diversos caráters são contratados(apesar de não haver um contratante em si). Enquanto a máquina mastiga, me concentro em sua digestão e deixo de reviver por um instante a morte das minhas filhas e o estrupo e assassinato de minha jovem e suave esposa.
Um fato nos une, por mais sortidos, por mais motivos obscuros que nos levem à estar ali: todos têm fome.
Um funcionário acidentalmente moeu seu braço. Indiferentes, os observamos gangrenar até a morte...as engrenhagens tingidas de mais vermelho além da natural ferrugem. Um grupo de canibais o observavam morrer enquanto passavam as línguas sobre seus dentes bestiais.
Eles são boas pessoas. E provavelmente trabalharão por mais tempo que eu.
By Mariana Diamond
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
micro-conto ou frase?
terça-feira, 15 de setembro de 2009
NUDEZ
Só. Quando nu fico. Silêncio de pêlos. Curvas de costelas. Prisão nasal. É onde deito. Solo água. Onde piso afundo. Completamente nu. Submerso esqueço. Até quando (?) o acaso (ou por acaso) acordar. Somente nu cru azul. O silêncio. O peito e os pêlos. É onde tudo mora: no silêncio. Onde a resposta aguarda. Por baixa d’água. O corpo fundo. As idéias boiando ou afundando se perdem. Eu silêncio. Eu nu de pensamentos. Eu deitado. Eu aberto ao mundo. Eu água. Eu vulnerável. Por isso ouço vozes. Desconstruo frases. Adquiro hábitos. Remexo baús. E quando só mergulho aqui. Foto By Robert Mapplethorpe
Escrito por Rafael Franco
terça-feira, 8 de setembro de 2009
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